Curiosidades
Hefesto, a deficiência e a invenção de novas formas de existir.
Por Geraldo Nogueira*
Da mitologia grega às reflexões contemporâneas sobre deficiência.
Há histórias que atravessam os séculos porque conseguem dizer, mesmo em linguagem mítica, algo profundamente humano. A mitologia grega é uma dessas grandes narrativas. Seus deuses, heróis, conflitos, amores, tragédias e invenções continuam presentes na literatura, nas artes, na cultura e até na linguagem cotidiana do Ocidente.
Se pudéssemos programar uma máquina do tempo e escolher um destino, poderíamos estacioná-la na Grécia Antiga, por volta do século VII a.C., período em que muitas das narrativas que hoje reconhecemos como mitologia grega foram sistematizadas e difundidas. Embora os mitos tenham sido construídos para explicar o mundo segundo a visão de seus povos e de seu tempo, eles permanecem surpreendentemente atuais.
A força da mitologia está justamente nisso, seus personagens pertencem a um passado distante, mas os dilemas que enfrentam continuam contemporâneos.
Uma viagem pela Via Láctea.
Para compreender a dimensão dessa influência, basta olhar para o céu.
O próprio nome Via Láctea está associado a uma narrativa da mitologia grega. Segundo uma das versões do mito, Hércules, filho de Zeus com a mortal Alcmena, teria sido colocado por Zeus junto ao seio de Hera enquanto ela dormia. A intenção era que o filho de uma mortal pudesse beber o leite de uma deusa e, assim, adquirir poderes divinos.
Hera, entretanto, despertou e, ao perceber que amamentava uma criança que não era sua, afastou Hércules. Algumas gotas de seu leite teriam atravessado o céu e formado a faixa luminosa que hoje identificamos como nossa galáxia.
A expressão Via Láctea, portanto, carrega em sua própria origem etimológica a ideia de “caminho do leite”.
É claro que não estamos diante de uma explicação científica sobre a formação da galáxia. Estamos diante de uma tentativa humana, antiga e poética, de explicar aquilo que os olhos contemplavam no céu.
E talvez seja justamente essa a grande força dos mitos, transformar aquilo que não compreendemos em narrativa, símbolo e significado.
Mas é Hefesto quem nos interessa.
Entre tantos personagens da mitologia grega, há um cuja história merece um olhar especial quando pensamos sobre deficiência. Hefesto, o deus do fogo, da metalurgia, da forja, da tecnologia e dos artesãos.
As versões sobre sua origem e sobre sua deficiência são variadas. Em algumas narrativas, Hefesto teria sido lançado do Olimpo por sua própria mãe, Hera; em outras, teria sido Zeus quem o expulsou. Há ainda diferentes versões para explicar a origem de sua deficiência física.
Aqui, porém, proponho uma licença narrativa.
Não se trata de apresentar uma versão histórica ou canônica do mito, mas de reconstruí-lo livremente, utilizando elementos da tradição grega para produzir uma reflexão contemporânea sobre deficiência, exclusão, talento e capacidade.
O deus que nasceu diferente.
Imaginemos Zeus tentando demonstrar aos demais deuses que era capaz de criar um ser sem depender de uma relação carnal. Dessa experiência teria surgido Minerva, nascida da mente de um deus e associada à razão, à estratégia e à sabedoria.
Hera, tomada pelo orgulho e pelo desejo de demonstrar que também possuía esse poder, teria decidido criar um ser por conta própria.
E assim teria surgido Hefesto.
Mas Hefesto não correspondia ao padrão de perfeição física valorizado pelos habitantes do Olimpo. Era “coxo”, tinha mobilidade reduzida e caminhava de maneira diferente dos demais deuses.
O problema, portanto, não estava apenas em seu corpo.
O problema estava no olhar dos outros.
Os deuses do Olimpo não souberam enxergar suas capacidades. Viram primeiro sua deficiência. E, por isso, o expulsaram.
Essa passagem, ainda que construída aqui como uma releitura livre do mito, oferece uma poderosa metáfora para a história das pessoas com deficiência.
Quantas vezes, ao longo da história, a sociedade enxergou primeiro a deficiência e somente depois, a pessoa?
A queda que não foi o fim.
Segundo as narrativas mitológicas, Hefesto teria caído durante nove dias e nove noites até chegar à Terra. Foi acolhido por Tétis e Eurínome, que o protegeram e o ajudaram.
Longe do Olimpo, Hefesto descobriu e desenvolveu suas habilidades.
Dominou o fogo.
Aprendeu a trabalhar os metais.
Transformou matéria bruta em objetos extraordinários.
Tornou-se um dos mais habilidosos artesãos de toda a mitologia grega.
Aquele que havia sido considerado inadequado pelos deuses tornou-se indispensável a eles.
Hefesto passou a produzir armas, armaduras, joias, ferramentas e objetos mágicos. Muitos dos equipamentos extraordinários atribuídos aos deuses teriam saído de sua forja.
Aquele que havia sido excluído do Olimpo tornou-se o responsável por produzir aquilo que permitia aos habitantes do Olimpo exercerem seus poderes.
Há, nessa passagem, uma ironia extraordinária.
O Olimpo não percebeu o valor de Hefesto quando olhou para seu corpo. Só percebeu quando precisou de seu talento.
A deficiência não eliminou sua potência
Uma das interpretações mais interessantes da narrativa de Hefesto está justamente na relação entre sua deficiência e sua capacidade inventiva.
Em uma releitura livre do mito, podemos imaginar que sua mobilidade reduzida o levou a desenvolver soluções próprias para se deslocar e realizar suas atividades. A cadeira de rodas alada, presente em algumas releituras contemporâneas inspiradas no personagem, torna-se então um símbolo poderoso.
Não como instrumento de “superação” da deficiência.
Mas como expressão de independência e tecnologia assistiva.
Essa diferença é fundamental.
Durante muito tempo, a sociedade contou histórias sobre pessoas com deficiência a partir da ideia de que elas precisariam “vencer” ou “superar” seus corpos. Hoje sabemos que essa perspectiva é insuficiente.
A questão não é simplesmente modificar a pessoa para que ela se adapte ao mundo.
É também, e principalmente, transformar o mundo para que diferentes pessoas possam nele viver, circular, trabalhar, estudar, amar, criar e participar.
Hefesto e a tecnologia.
Existe ainda outra dimensão extremamente contemporânea na figura de Hefesto.
Ele é, essencialmente, um inventor.
É o deus da forja, da técnica, da transformação da matéria.
Nesse sentido, podemos estabelecer uma conexão simbólica entre Hefesto e aquilo que hoje chamamos de tecnologia assistiva.
Uma cadeira de rodas, uma prótese, um leitor de tela, uma órtese, um aparelho auditivo, uma tecnologia de comunicação aumentativa e alternativa ou qualquer outro recurso que amplie a autonomia de uma pessoa não deveria ser visto como um favor ou como um mecanismo de compensação de uma “incapacidade”.
São instrumentos de liberdade.
São ferramentas de participação social.
São tecnologias que ajudam a remover barreiras.
Hefesto, nessa perspectiva, deixa de ser apenas o “deus coxo” rejeitado pelo Olimpo e passa a representar a capacidade humana de transformar limitações impostas pelo ambiente em possibilidades de criação.
O verdadeiro problema estava no Olimpo.
Essa talvez seja a maior provocação que a história de Hefesto pode nos oferecer.
Se os demais deuses tivessem reconhecido suas capacidades desde o início, Hefesto teria sido expulso?
Se o Olimpo fosse um ambiente acessível, Hefesto teria sido considerado incapaz?
Se a diferença corporal não fosse tratada como motivo de inferiorização, sua história teria sido a mesma?
Essas perguntas nos conduzem diretamente ao debate contemporâneo sobre inclusão.
Durante séculos, predominou uma visão segundo a qual a deficiência estava essencialmente na pessoa. Era o indivíduo que precisava ser corrigido, tratado, adaptado ou escondido.
A concepção contemporânea de deficiência deslocou esse olhar.
A pessoa continua sendo a mesma.
O que precisa mudar é a relação entre suas características e as barreiras existentes na sociedade.
Uma escada pode transformar uma pessoa que utiliza cadeira de rodas em alguém impedido de acessar determinado espaço. Uma rampa elimina essa barreira.
Um documento inacessível pode impedir uma pessoa cega de obter uma informação. Um documento digital acessível pode eliminar essa barreira.
A ausência de intérprete de Libras pode impedir a comunicação de uma pessoa surda. A acessibilidade comunicacional pode eliminar essa barreira.
A deficiência, portanto, não pode ser compreendida apenas pelo corpo. Ela também é produzida pela interação entre características individuais e barreiras sociais, ambientais e comunicacionais.
Da exclusão à participação.
O mito de Hefesto nos permite imaginar o Olimpo como uma sociedade.
Uma sociedade que estabeleceu um padrão de normalidade.
Quem não correspondia a esse padrão era colocado para fora.
Mas existe uma pergunta que merece ser feita: quem determinou que o padrão deveria ser aquele?
Essa é uma das questões centrais da inclusão.
Não precisamos construir um mundo onde todas as pessoas sejam iguais.
Precisamos construir um mundo no qual as diferenças não determinem quem pode ou não participar.
A verdadeira inclusão não consiste em permitir que algumas pessoas “diferentes” entrem em um espaço construído para outras.
Consiste em construir espaços desde o início considerando a diversidade humana.
Nada sobre nós sem nós.
Há ainda uma lição política nessa narrativa.
Hefesto foi excluído de uma decisão que dizia respeito diretamente à sua própria existência. Outros decidiram que sua deficiência era motivo suficiente para afastá-lo do convívio.
A história da deficiência, em muitos momentos, foi marcada exatamente por isso; pessoas falando sobre pessoas com deficiência sem que elas participassem das decisões.
É por isso que o lema “Nada sobre nós sem nós” adquiriu tanta força no movimento internacional das pessoas com deficiência.
Não basta criar políticas públicas para pessoas com deficiência.
É necessário construí-las com as pessoas com deficiência.
Não basta falar de acessibilidade.
É preciso ouvir quem enfrenta diariamente as barreiras da inacessibilidade.
Não basta criar leis.
É necessário garantir participação, fiscalização e efetividade.
O retorno ao Olimpo.
Na narrativa mitológica, Hefesto acabou retornando ao Olimpo. E voltou não como aquele jovem rejeitado, mas como alguém cuja capacidade era reconhecida pelos próprios deuses.
Mas talvez devêssemos inverter a lógica dessa história.
Não deveria ser necessário que uma pessoa com deficiência se tornasse extraordinária para conquistar o direito de pertencer.
Não deveria ser necessário ser um grande inventor, um artista excepcional, um atleta paralímpico, um professor brilhante, um advogado renomado ou um político influente para ser respeitado.
O direito à dignidade não depende de desempenho.
A pessoa com deficiência não precisa provar que é capaz de fazer algo extraordinário para merecer direitos.
Ela já possui esses direitos porque é humana.
Uma nova leitura do mito.
Talvez seja esse o grande ensinamento que podemos retirar de Hefesto.
Ele nos mostra que uma sociedade pode cometer um enorme erro quando confunde diferença com incapacidade.
O Olimpo enxergou sua perna.
Não enxergou sua inteligência.
Enxergou sua maneira de caminhar.
Não enxergou sua capacidade de criar.
Enxergou aquilo que considerava uma imperfeição.
Não enxergou o artista, o artesão, o inventor.
E, ironicamente, acabou dependendo justamente daquele que havia rejeitado.
A história pode ser lida como uma metáfora sobre todos aqueles que foram colocados para fora porque não correspondiam ao modelo considerado “normal”.
Mas também pode ser lida como uma advertência.
Talvez o problema nunca tenha estado em Hefesto. Talvez estivesse no Olimpo.
E essa é uma reflexão que continua absolutamente contemporânea.
Ainda existem muitos “Olimpos” em nossa sociedade: escolas, universidades, empresas, espaços culturais, ambientes políticos, órgãos públicos, cidades e instituições que foram construídos segundo um modelo restrito de ser humano.
A pergunta “Como colocar a pessoa com deficiência dentro do mundo que já existe?”, não é cabível.
A pergunta correta é: “Como transformar o mundo para que todas as pessoas possam pertencer a ele?”
Se conseguirmos responder a essa pergunta, talvez nossa máquina do tempo não precise mais voltar à Grécia Antiga.
Porque teremos aprendido, finalmente, uma das mais importantes lições que os antigos mitos ainda podem nos ensinar, a diferença não diminui a humanidade; é a sociedade que precisa aprender a enxergá-la sem transformá-la em exclusão.
*Subsecretário de Políticas Inclusivas do Estado do RJ
