Saúde
Usinas de álcool nas mãos do crime organizado ameaçam a segurança química e expõem falhas de fiscalização
São Paulo, 06/10/2025
Um número crescente de usinas de álcool no interior paulista vem sendo controlado, direta ou indiretamente, por grupos ligados ao crime organizado, segundo investigações recentes conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. O que antes parecia um setor restrito à produção de etanol combustível e aguardente artesanal agora se tornou um canal lucrativo para o tráfico e a adulteração de bebidas, com graves riscos à saúde pública.
As autoridades apuram que essas usinas, compradas ou arrendadas por organizações criminosas, estão produzindo bebidas e álcoois contaminados por metanol, um composto altamente tóxico que pode causar cegueira, lesões neurológicas e até morte quando ingerido. O problema se agrava porque o metanol de uso industrial é muito mais barato que o etanol e tem propriedades físicas semelhantes, o que facilita sua utilização fraudulenta para aumentar o volume de bebidas ou de álcool combustível adulterado.
Da cana ao crime: onde o metanol entra
Em uma destilaria regular, o processo de produção do álcool etílico a partir da cana-de-açúcar é rigidamente controlado. Durante a destilação, a fração inicial — conhecida como “cabeça” — contém impurezas e pequenas quantidades de metanol formadas naturalmente na fermentação. Essas frações devem ser separadas e descartadas, sob supervisão técnica de profissionais da química habilitados e registrados no Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ-IV).
Entretanto, nas usinas sob controle de grupos ilegais, esse protocolo é simplesmente ignorado. Equipamentos sem calibração, ausência de engenheiros químicos responsáveis e produção clandestina fora das normas técnicas permitem que o metanol permaneça — ou até seja adicionado — nas bebidas. O resultado é um produto que sai da fábrica já contaminado e potencialmente letal.
O papel do CRQ-IV e o desrespeito à fiscalização
O CRQ-IV é o órgão técnico responsável por garantir que cada indústria química em operação no estado de São Paulo conte com profissionais qualificados, controle laboratorial e boas práticas de fabricação. Sua atuação inclui a fiscalização de destilarias, usinas e indústrias que manipulam produtos químicos, exigindo registro, responsáveis técnicos e relatórios de conformidade.
Contudo, o avanço do crime organizado sobre o setor tem se apoiado justamente no desrespeito às normas e à vigilância do Conselho. Usinas compradas por laranjas, falsos técnicos ou empresas de fachada passam a operar sem qualquer registro profissional, fugindo do alcance das inspeções.
“Essas quadrilhas tratam a segurança química como um obstáculo burocrático, e não como uma barreira essencial para proteger vidas”, afirma um fiscal do CRQ-IV que preferiu não se identificar. “Quando o controle técnico é ignorado, o risco de contaminação é inevitável.”
A dificuldade de fiscalização também é estrutural. O número de fiscais do CRQ e de outros órgãos de vigilância é limitado frente ao crescimento das unidades irregulares. Muitas operam em áreas rurais isoladas, mudando de endereço com frequência, o que torna difícil o rastreamento. Em paralelo, a entrada e o desvio de metanol industrial, fiscalizado pela ANP e pela Receita Federal, escapam por brechas logísticas e falsificação de notas fiscais.
Impacto em cadeia
O efeito desse desrespeito se espalha por toda a cadeia de produção. Além dos riscos diretos ao consumidor, a presença de metanol e outros contaminantes prejudica usinas regulares, que passam a competir com produtos ilegais mais baratos. A adulteração também compromete a imagem do setor químico e alcooleiro brasileiro, gerando desconfiança internacional e riscos de sanções sanitárias.
Empresas que seguem as normas defendem o fortalecimento da atuação conjunta entre o CRQ, a Polícia Federal, a Anvisa, o MAPA e a Secretaria da Fazenda, de modo a cruzar dados de licenças, registros de transporte de metanol e autorizações de operação. “Sem coordenação e rastreabilidade química, as usinas ilegais continuarão explorando brechas e colocando vidas em risco”, alerta o engenheiro químico Carlos Menezes, conselheiro do CRQ-IV.
Fiscalização como barreira contra o crime
O caso das usinas de álcool mostra como a fiscalização química é uma linha de defesa essencial — e como seu enfraquecimento abre espaço para crimes de grande escala. Cada lote de álcool contaminado que sai de uma usina clandestina representa não apenas uma ameaça à saúde pública, mas também um ataque direto à credibilidade da indústria química nacional.
Enquanto as investigações avançam, o CRQ-IV reforça o alerta: nenhuma destilaria pode operar sem responsável técnico registrado, controle laboratorial e rastreabilidade de insumos. E a sociedade, diante do aumento das vítimas de intoxicação, começa a perceber o que acontece quando a química é deixada nas mãos erradas.
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