Opinião
Pessoas com deficiência são vítimas preferenciais do bullying.
Por Geraldo Nogueira*
O bullying no Brasil não é apenas um problema recorrente, é um fracasso coletivo. E quando olhamos para quem mais sofre com essa violência, o cenário é ainda mais grave. Pessoas com deficiência seguem sendo, de forma desproporcional, as principais vítimas dessa prática cruel e persistente.
A Lei nº 13.185/2015 define o bullying como uma violência intencional, repetitiva e marcada pelo desequilíbrio de poder. Mas, na prática, o que vemos vai além da definição legal. Trata-se de uma cultura de exclusão que ainda tolera o preconceito como algo “natural”, especialmente quando direcionado a quem já vive em condição de vulnerabilidade.
Não é coincidência. O agressor escolhe sua vítima. E escolhe, quase sempre, quem acredita não ter meios de reagir. Crianças e jovens com deficiência, especialmente aqueles com deficiência intelectual ou transtornos do neurodesenvolvimento, como o autismo, tornam-se alvos fáceis em ambientes que deveriam protegê-los, como a escola.
Os dados são alarmantes. Estudo publicado pela The Lancet Child & Adolescent Health revela que uma em cada três crianças com deficiência sofre violência, e que esse grupo tem o dobro de chances de ser vítima de bullying em relação aos demais. Em alguns casos, como o de crianças com autismo, a probabilidade de sofrer agressões pode ser até sete vezes maior. Esses números não são estatísticas frias, são retratos de uma realidade que insiste em ser ignorada.
E o mais grave, muitas dessas vítimas sequer conseguem denunciar o que vivem. Seja por limitações de comunicação, seja pelo medo ou pela ausência de acolhimento, o silêncio acaba funcionando como um aliado do agressor. Quando isso acontece, a omissão da sociedade se torna cúmplice.
É preciso dizer com clareza: o problema não está na deficiência, mas na incapacidade social de lidar com a diferença. O bullying contra pessoas com deficiência não nasce do acaso, ele é alimentado por uma cultura que ainda marginaliza, estigmatiza e invisibiliza.
A escola, principal palco dessa violência, precisa deixar de ser apenas espectadora. Não basta campanhas pontuais ou discursos protocolares. É necessário compromisso real com a inclusão, formação adequada de educadores e mecanismos eficazes de prevenção e resposta. Da mesma forma, famílias, poder público e instituições precisam assumir sua responsabilidade.
Não há mais espaço para neutralidade. Combater o bullying, especialmente contra pessoas com deficiência, é uma questão de direitos humanos, de dignidade e de justiça social.
Ignorar essa realidade é permitir que ela continue.
E isso, definitivamente, não pode ser uma opção.
*Diretor da Pessoa com Deficiência da OAB/RJ.
