Opinião
Vogais que fazem a diferença nas urnas
É curioso ver como uma simples vogal pode influenciar o sentido de voto. O migrante que sai do país de origem com “e” adquire automaticamente um novo estatuto mal entra noutro. Na prática, o imigrante continua a ser a mesma pessoa, embora não aos olhos de quem o acolhe. Quem chega de fora é sempre estrangeiro.
Até há bem pouco tempo, ousar procurar uma vida melhor era sinónimo de coragem. Havia nesta dinâmica, uma certa dose de inconformismo, de determinação de quem decide fazer, por si mesmo, aquilo que os governantes que provavelmente até ajudaram a eleger não fizeram.
Hoje, esta mesma firmeza facilmente encontra pelo caminho adjetivos menos elogiosos, embora não menos criativos. Os invasores que antes chegavam em naves espaciais passaram a deslocar-se a pé, de carro, de barco e, até mesmo, de avião em função da distância e, claro, do dinheiro que levam nos bolsos.
Afinal, o invasor já não vem em naves espaciais!
Apesar disso, estes migrantes com “i” – que em casa vêm substituída a primeira vogal por “e” - continuam a ter capacidades raras, dignas dos grandes clássicos de ficção como a de agregar as maleitas alheias, embora neste caso o mosquito não seja para aqui chamado. Mais uma vez, a vogal “i” ganha destaque em matéria de insegurança que, até então, parecia ser inexistente, uma vez que dela não se ouvia falar. Antes de os migrantes aparecerem, os restantes seres humanos viviam em aparente harmonia envoltos numa bolha translúcida que, talvez por causa disso, também, nunca ninguém viu.
O género parece ganhar adeptos um pouco por todo o mundo, a começar pela Europa. Não deixa, no entanto, de ser surpreendente que os alvos do populismo da extrema-direita longe de casa sejam, ao mesmo tempo e não raras vezes, os seus maiores entusiastas na hora de votar.
Na verdade, se fossem os emigrantes a decidir o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa na primeira volta das presidenciais portuguesas, a escolha recairia em André Ventura. O candidato e líder do Chega, partido da extrema-direita, arrecadou mais de 40 por cento dos votos da diáspora. Venceu em África, na América e na Europa. O socialista António José Seguro, o segundo mais votado, recolheu cerca de 24 por cento dos votos.
Os números mostram que a primeira volta das eleições a 18 de janeiro não mobilizou necessariamente uma grande fatia do eleitorado além-fronteiras, mas evidencia a tendência de crescimento da extrema-direita junto de quem vota, os mesmos frequentemente alvo da política populista no país onde, por escolha ou falta dela, decidiram viver.
Fotografia: Dominik Kuhn
